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Eleições 2018

Alerta de risco à democracia é exagerado e ainda ajuda Bolsonaro, diz analista

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Agência Brasil Ao insistir no discurso da ‘ameaça à democracia’, esquerda leva o jogo para terreno onde Bolsonaro leva vantagem, diz professor

Roger Waters, fundador da banda britânica de rock progressivo Pink Floyd, causou polêmica na semana passada ao incluir o nome do candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, numa lista de “neofascistas”, ao lado de Vladimir Putin (Rússia) e Recep Erdogan (Turquia), entre outros.

Waters – que, dentro do clima de polarização que tomou conta do Brasil, foi elogiado e criticado entre os próprios fãs – partilha da opinião de outros artistas e de políticos progressistas, que veem Bolsonaro como uma ameaça à democracia brasileira. É o que diz o presidenciável do PT, Fernando Haddad, mas também a cantora pop Madonna e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), entre outros.

Mas esta opinião não é compartilhada por todos os observadores da cena política. Para o doutor em filosofia política e professor do Insper Fernando Schüler, Bolsonaro não representa qualquer risco real à democracia brasileira, apesar de seu discurso ter traços autoritários.

Ao longo de sua carreira política e especialmente desde o começo das eleições, Bolsonaro deu várias declarações que não caberiam a um político comprometido com o regime democrático, lembra Schüler. “Não aceito resultado diferente da minha eleição”, chegou a dizer ele em 28 de setembro.

Geraldo Magela / Agência Senado ‘A democracia é uma grande máquina moderadora de posições’, diz Schuler

A questão, na visão do cientista político em entrevista à BBC News Brasil, é que a retórica virulenta de Bolsonaro tende a ser apenas isto: retórica.

“Dos dois lados (PT e Bolsonaro) você tem uma retórica que pode ser interpretada como de risco para a democracia. Mas eu acho que isto fica no campo da retórica. Acho que a eleição trata de moderar essas posições. E acho que as instituições do Brasil já deram provas mais que suficientes de que são muito sólidas, e que não tolerariam qualquer tipo de agressão à constitucionalidade”, diz ele.

Bravata por bravata, o PT também as faz, diz Schüler. A diferença é que a sociedade já se acostumou com o discurso da esquerda sobre a (ausência) de democracia no país.

“Quando o Lula vai ao (jornal) The New York Times e diz (em 14 de agosto deste ano) que não existe democracia no Brasil, que está em curso um golpe de Estado, não reconhece a Justiça, não reconhece julgamentos do Judiciário, ele também desafia as instituições. É que nós nos habituamos com esta retórica (da esquerda). E não estamos habituados com a retórica da direita”, diz.

“Culturalmente, nos acostumamos a dar a devida interpretação para a retórica da esquerda. Porque a gente sabe que é apenas uma retórica. O PT ficou 13 anos no poder e não ameaçou a democracia. A retórica do Bolsonaro é chocante, mas gradativamente ele vai sendo ‘domesticado’, e não representa risco nenhum à democracia”, avalia ele.

Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil PT também usa retórica contrária às instituições, mas governou durante 13 anos e preservou democracia, diz professor

O bom do regime democrático, diz Schüler, é que ele tem um componente pedagógico: políticos e cidadãos aprendem conforme fazem escolhas – e sofrem as consequências. Ele cita a saraivada de críticas que Bolsonaro recebeu após a fala sobre não aceitar o resultado das eleições, no fim de setembro.

“Para mim, aquilo é um exemplo. Qualquer tentativa de ruptura de um algum princípio democrático e constitucional, vindo de onde venha, seja do campo do Bolsonaro, seja do campo do Haddad (…), será imediatamente rechaçado pelas instituições, pelo Congresso. Não teria nenhum tipo de suporte nas Forças Armadas, que já deram demonstrações exaustivas de que cumprem seu papel constitucional”, diz o professor do Insper, gaúcho radicado em São Paulo.

“Então, acho que não dá para confundir retórica de um parlamentar polêmico, ou mesmo retóricas de campanha, com uma ameaça real à regra do jogo no Brasil”, afirma Schüler.

“A democracia é uma grande máquina moderadora de posições. A democracia é uma máquina inclusiva. Mesmo agora na campanha do 2º turno, as duas candidaturas já moderaram vários pontos de vista. Ambos abandonaram as propostas de Constituinte (que foram negadas por ambos os candidatos logo após a votação do 1º turno). O Haddad recuou na questão do aborto, por exemplo; Bolsonaro recuou no tema das privatizações”, diz ele, que é mestre em ciência política e doutor em filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Fernando Schüler / acervo pessoal Fernando Schüler: qualquer tentativa de mudar as regras do jogo terá repúdio rápido e generalizado

Ambiente de ‘guerra’ favorece Bolsonaro

Além disso, ao investir na narrativa sobre o “risco à democracia”, a esquerda e o PT estariam levando o jogo eleitoral para um campo onde Bolsonaro leva vantagem – e evitando a discussão focada em propostas para os problemas do país.

“A narrativa da defesa da democracia fala muito com os militantes do PT, fala muito com um público que já é do PT ou que já tenderia a apoiar o Haddad. Mas é uma retórica que acirra a polarização. E acaba sendo eficiente para o Bolsonaro, pois este é um clima no qual ele opera bem. O clima de ‘guerra cultural’ é um ecossistema no qual um candidato populista e conservador, com as características do Bolsonaro, funciona bem”, observa ele.

“É um pouco o que o Steve Bannon (ex-estrategista e assessor político do republicano Donald Trump, nos EUA) dizia dos democratas nos Estados Unidos. ‘Olha, se vocês insistirem na retórica da política identitária (relacionada a direitos de minorias como negros e homossexuais), nós vamos ganhar a eleição (de 2016)’. Nesta guerra cultural, os conservadores se saem melhor que os progressistas, digamos”, diz.

MASSIMO PERCOSSI / EPA O ex-estrategista político de Donald Trump, Steve Bannon. Bolsonaro nega qualquer ligação com ele

“É isto que está acontecendo agora no Brasil. Esta é uma retórica que ela mobiliza os militantes, os intelectuais, os ativistas do PT, de modo geral, mas ela não fala com o eleitor menos politizado. Ela não busca votos do outro lado”, avalia ele, que vê falhas de estratégia que explicam o desempenho fraco do PT na disputa pelos votos.

“A grande chance de Haddad nesta campanha era tirar votos do outro lado. Quando ele faz uma acusação moral, uma acusação ética (contra Bolsonaro), dentro desta metalinguagem que é muito abstrata, ela não funciona. Ela joga a discussão para um terreno onde Bolsonaro ganha a eleição”, diz Schüler.

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Eleições 2018

O discurso de Haddad após derrota nas urnas: ‘não tenham medo’

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Fernando Haddad (PT) falou pela primeira vez na noite deste domingo (28) após a derrota nas urnas para Jair Bolsonaro (PSL), que foi eleito o novo presidente da República. Ao lado da esposa Estela Haddad e da aliada Manuela D’Ávila (PC do B), que foi sua vice na chapa “O Brasil Feliz de Novo”, o petista discursou em um hotel na cidade de São Paulo e pediu para que os eleitores que votaram nele “não tenham medo”.

“Em primeiro lugar, gostaria de agradecer meus antepassados. Aprendi com eles o valor da coragem para defender a justiça a qualquer preço. Vivemos um período em que as instituições são colocadas à prova a todo instante. A começar por 2016, quando tivemos o afastamento da presidente Dilma. Depois, a prisão injusta do presidente Lula. Mas nós seguimos”, começou o ex-presidente de São Paulo.

“Nós temos uma tarefa enorme no país, que é, em nome da democracia, defender o pensamento, as liberdades desses 45 milhões de brasileiros que nos acompanharam. Temos a responsabilidade de fazer uma oposição colocando os interesses nacionais acima de tudo. Temos um compromisso com a prosperidade desse país”, disse Haddad.

“Vamos continuar nossa caminhada, conversando com as pessoas, nos reconectando com as bases, nos reconectando com os pobres desse país. Daqui a quatro anos teremos uma nova eleição, temos que garantir a instituições. A soberania nacional e democracia, como nós a entendemos, é um valor que está acima de todos nós”, acrescentou.

“Talvez o Brasil nunca tenha precisado mais do exercício da cidadania do que agora”, disse Haddad, pedindo que os eleitores que “não tenham medo”. “Temos uma tarefa enorme que é defender o pensamento, a liberdade desses 45 milhões de votos”, diz Haddad. “Nós não vamos deixar esse país para trás, respeitando a democracia”, finalizou.

Fonte: NMB

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Eleições 2018

STF analisará se Bolsonaro, sendo réu, pode assumir presidência, diz Rosa Weber

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Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / Ag. Brasil

A presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministra Rosa Weber, afirmou, na noite deste domingo (28), que o Supremo Tribunal Federal deverá analisar se o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), por ser réu, pode assumir o cargo. Ela disse também que a corte irá priorizar os julgamentos de pedidos de cassação das candidaturas a presidente de Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT).

A ministra concedeu entrevista coletiva para a divulgação oficial da eleição de Jair Bolsonaro (PSL) ao Palácio do Planalto. Ao abrir espaço a jornalistas, Rosa recebeu várias perguntas sobre a disseminação de fake news durante o pleito deste ano. Ela respondeu que o fenômeno é de “difícil equacionamento” e que o tribunal continuará estudando o tema. “A ênfase de que não há anonimato na internet é reveladora de que há um bom caminho a seguir”, afirmou.

BN

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Eleições 2018

A guinada à direita com Bolsonaro e o discurso que apequenou Haddad

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Foto: Montagem/ Bahia Notícias

O Brasil finalmente poderá colocar um fim à intensa – e tensa – campanha eleitoral de 2018. Com cerca de 58 milhões de voto, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) foi eleito presidente da República e marcou uma guinada à direita na condução das políticas públicas no país. Depois de quatro eleições consecutivas vencidas pelo PT, um candidato de extrema direita chega ao Palácio do Planalto, com um programa de governo ainda repleto de buracos, porém legitimado pelas urnas.

Bolsonaro teve todos os méritos por subverter a lógica da política ao ser candidato por uma legenda nanica, sem infraestrutura e recursos partidários e com uma base eleitoral formada, principalmente, por meio de redes sociais. Apesar de parecerem ligeiramente amadores, os passos do deputado federal parecem ter sido milimetricamente planejados para culminar com essa vitória no segundo turno. O candidato do PSL é, antes de tudo, o grande vencedor das eleições de 2018 – e o seria mesmo que a diferença de votos para o adversário, Fernando Haddad (PT), fosse apertada.

A chegada dele ao comando federal coloca o Brasil na rota das guinadas à direita do sistema político mundial. A tendência era observada fora do país e, até então, não havia dado sinais tão fortes em território brasileiro. Bolsonaro o fez com um discurso conservador e em diversos momentos repulsivo, porém amparado na consolidação do antipetismo, que motivou uma parte expressiva do não voto em Haddad.

O novo presidente fez dois discursos depois de eleito. Um primeiro controlado, na principal ferramenta dele durante a campanha, as redes sociais. Ali, observou-se um Bolsonaro autêntico, falando diretamente para o público que cativou e sem firulas de um candidato. O segundo foi mais simbólico. Planejado e escrito previamente, o deputado federal adotou uma postura de estadista, até então inédita para quem acompanha o tom utilizado por ele ao longo de toda a trajetória política.

Ao que parece, a retórica que o projetou pode ficar em segundo plano para tentar viabilizar os projetos de reforma e de Brasil defendidos por ele. A partir desta segunda-feira (29), a vigilância sobre Bolsonaro vai ser ainda maior e qualquer desvio da promessa de “liberdade” e “democracia” será cobrado muito incisivamente. Será esse o papel da imprensa, mas também da oposição ao novo governo que se forma.

Os opositores, inclusive, começaram mal. O nome mais forte para ocupar a função de porta-voz do outro lado, o derrotado Fernando Haddad, preferiu fazer remissões ao “golpe” contra Dilma Rousseff, à prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, considerada “injusta” por ele, e a eventuais ameaçadas que Bolsonaro traria à democracia. Para quem esperava uma fala de um possível estadista, o petista ficou ligeiramente menor do que poderia ter saído da eleição.

Tal qual 2014, não deve haver espaço para um “terceiro turno eleitoral”. Aceitar que houve uma eleição e que a maioria da população escolheu Bolsonaro, mesmo com as diversas restrições a ele, é dever de todos os brasileiros. Se é a direita que a nação quer que comande o país, a esquerda vai reaprender a ser oposição. E talvez terminemos 2018 mais maduros do que começamos.

BN

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