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Eleições 2018

Como votos em branco e nulos podem beneficiar Bolsonaro no 2º turno

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TSE Votos brancos e nulos para presidente somaram 8,79% do total no primeiro turno da eleição de 2018

Conquistar parte dos votos brancos e nulos é um dos desafios que o candidato à Presidência Fernando Haddad (PT) precisaria superar para vencer o líder no primeiro turno, Jair Bolsonaro (PSL).

Haddad tem 41% das intenções de voto, de acordo com a pesquisa Ibope divulgada nesta segunda-feira, 15 de outubro. Bolsonaro tem 59%. Como a diferença na intenção de votos é alta – 18 pontos –, Haddad precisaria não apenas atrair os votos que foram para outros candidatos no primeiro turno, mas convencer alguns dos que votaram em branco e nulo a se posicionarem, segundo o sociólogo Thiago de Aragão, da Arko Consultoria.

Isso porque, na prática, esses votos ajudam quem está na frente na disputa – como não são contabilizados entre os votos válidos, facilitam a obtenção de maioria pelo líder nas pesquisas. A mesma lógica vale para as abstenções.

Embora historicamente o número de brancos e nulos sempre seja menor no segundo turno, os especialistas afirmam que não necessariamente a tendência vai se repetir no segundo turno em 2018, porque o pleito deste ano é extremamente atípico.

“A comparação (com outros anos) é problemática”, explica o cientista político Fábio Wanderley Reis, professor da UFMG. “Estamos diante de uma situação sui generis.”

Entre as características singulares do pleito deste ano está o fato de que as alianças partidárias e o tempo de TV tiveram muito menos importância do que em outros anos, por exemplo, com a internet e as redes sociais assumindo um papel muito maior.

Neste ano, os nulos e brancos somaram 8,79% do total de votos no primeiro turno – um número que está na média dos registrados nas eleições presidenciais desde o fim da ditadura. O menor índice foi de 6,4% em 1989 e o maior, de 10% em 2002 e em 2014.

Em 2014, votos brancos e nulos somaram 10% do total no primeiro turno e caíram para 6% no segundo. Em 2010, eles foram 7,1% no primeiro turno e 6,7% no segundo.

Já as abstenções (pessoas que simplesmente não vão votar) tradicionalmente aumentam: foram 19% dos eleitores registrados no primeiro turno de 2014 e 21% no segundo.

De acordo com a última pesquisa Ibope, a intenção de nulos e brancos para o segundo turno é ligeiramente superior à registrada no primeiro, de 9%.

BBC O número de brancos e nulos costuma ser menor no segundo turno

Como a rejeição afeta nulos e brancos?

Na disputa pelos votos no segundo turno, os dois candidatos têm em comum altos índices de rejeição.

Na pesquisa Ibope desta segunda-feira, 35% dos eleitores disseram que não votariam de jeito nenhum em Bolsonaro e 47% rejeitaram Haddad.

A um dia do primeiro turno, a situação era inversa: o capitão reformado tinha 43% de rejeição e o petista, 36%, conforme a pesquisa Ibope de 6 de outubro.

“Tem muita gente que está declarando voto em branco pela incerteza, pela rejeição ao que é visto como dois extremos”, afirma Reis. No entanto, diz ele, não é possível afirmar que a polarização vai desestimular o eleitor a votar.

Pelo contrário: o extremo desgosto com um dos candidatos pode incentivar pessoas que não escolheram no primeiro turno a se posicionar para neutralizá-lo.

Uma possibilidade é inclusive que a polarização faça com que, além dos brancos e nulos, o número de abstenções também caia.

Essa é a opinião do professor Lucio Rennó, do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília.

“É difícil especular, mas quanto mais competitiva uma eleição, maior pode ser o comparecimento. Tenderia a dizer que a competitividade pode nos mostrar o outro lado da moeda (diminuir a abstenção)”, afirma Rennó.

Questão matemática

Outro ponto importante, na visão dos analistas, é que, na prática, uma das candidaturas sempre acaba se beneficiando dos votos nulos e brancos – isso porque, matematicamente, eles ajudam quem está na frente, tanto no primeiro quanto no segundo turno.

Não é que o voto vá para alguém, mas, quando o eleitor vota nulo ou branco, esses votos não são contados entre os votos válidos. Isso faz com que, quanto maior o volume de brancos e nulos, mais fácil seja obter a maioria.

Isso porque, para eleger um presidente, é preciso mais de 50% dos votos válidos, não do total da votação.

Um exemplo: Se a eleição fosse em uma classe de dez alunos e todos votassem em um dos dois candidatos, para obter maioria e vencer seriam necessários 6 votos. Mas se 3 alunos votassem nulo ou branco, para obter maioria e vencer seriam necessários apenas 4 votos. Ou seja, fica mais fácil obter maioria e mais fácil vencer.

O mesmo vale se os 3 alunos faltarem à votação. Para o resultado final, os votos brancos, nulos e as abstenções (pessoas que faltam à votação) têm o mesmo efeito: ficam fora da contagem dos votos válidos.

Mas como isso tende a beneficiar o favorito nas pesquisas – que, no caso, é Jair Bolsonaro?

Considerando o total das intenções de voto, o ex-capitão está à frente, com 52% delas, enquanto Haddad tem 37%, de acordo com a última pesquisa Ibope, desta segunda-feira. Há, portanto, uma diferença de 15 pontos entre os dois candidatos.

José Cruz/Agência Brasil A urna tem uma tecla para votos em branco. Os votos são anulados quando o eleitor digita números que não correspondem a nenhum candidato e aperta confirma

A intenção de brancos e nulos é de 9% e os indecisos somam 2%.

Quando se consideram só os votos válidos, contudo, Bolsonaro tem 59% das intenções (sobe 7 pontos) e Haddad tem 41% (sobe 4 pontos) – assim, a distância aumenta para 18 pontos.

Isso acontece porque, sem os nulos e brancos na conta, cada voto individual “vale” um pouquinho mais e, portanto, quem hoje tem mais votos sobe mais pontos.

“Não se posicionar acaba contribuindo pra quem está ganhando”, afirma Reis.

Para votar em branco, basta clicar no botão “branco” presente no teclado da urna. Para anular, por sua vez, é preciso digitar um número que não corresponda a nenhum candidato e apertar confirma.

Como isso afeta as campanhas

Durante a campanha eleitoral, muitos apoiadores de Bolsonaro têm tentado aproveitar essa vantagem matemática: depois do primeiro turno, diversos militantes pró-Bolsonaro passaram a incentivar o voto em branco de quem rejeita o candidato.

Mas quem realmente precisa correr para conquistar os eleitores que votaram branco e nulo é a campanha do candidato do PT – ele precisa atrair uma boa parte deles se quiser superar a diferença de 18 pontos contra o adversário.

“Certamente é uma questão mais crucial, mais decisiva para Haddad, que tem que conquistar o pessoal que não votou e ganhar votos de quem declarou voto a Bolsonaro”, explica Reis.

Essa é também a opinião do sociólogo Thiago de Aragão, diretor da consultoria Arko.

“A onda de crescimento que Bolsonaro teve no primeiro turno continua. Se a gente tem um candidato favorito, ele tem a vantagem de não precisar se reinventar”, afirma Aragão

A campanha de Haddad tentou se reinventar: mudou a identidade visual para ter menos vermelho e mais verde e amarelo, afastou a imagem de Lula e fez um aceno ao centro e aos que ainda não decidiram ou pretendem votar em branco.

Segundo os analistas, o fato de ter chegado em segundo lugar no segundo turno e a necessidade de atrair esses votos fez com que Haddad tenha sido empurrado para essa estratégia.

“Se reforçasse o caráter de esquerda, iria consolidar os votos que teve, mas correria o risco de alienar os indecisos e eleitores de outros candidatos no primeiro turno.”, afirma Aragão.

No entanto, de acordo com o especialista, mesmo que essa estratégia seja bem sucedida, ela não será suficiente para ajudar o candidato do PT a virar o jogo. “Haddad depende de algum acontecimento extraordinário ou de um erro do adversário para ganhar”, avalia.

“Os principais pontos negativos que ameaçaram Bolsonaro no primeiro turno estão ligados a coisas que foram ditas por sua equipe. O que mais o prejudica é seu próprio pessoal.”

Ou seja, de acordo com ele, Bolsonaro nem precisaria se preocupar com nulos e brancos, abstenções ou eleitores indecisos. “Em tese ele já tem o que precisa para ganhar. Basta ter uma campanha discreta e não cometer nenhum erro”, diz o especialista.

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Eleições 2018

O discurso de Haddad após derrota nas urnas: ‘não tenham medo’

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Fernando Haddad (PT) falou pela primeira vez na noite deste domingo (28) após a derrota nas urnas para Jair Bolsonaro (PSL), que foi eleito o novo presidente da República. Ao lado da esposa Estela Haddad e da aliada Manuela D’Ávila (PC do B), que foi sua vice na chapa “O Brasil Feliz de Novo”, o petista discursou em um hotel na cidade de São Paulo e pediu para que os eleitores que votaram nele “não tenham medo”.

“Em primeiro lugar, gostaria de agradecer meus antepassados. Aprendi com eles o valor da coragem para defender a justiça a qualquer preço. Vivemos um período em que as instituições são colocadas à prova a todo instante. A começar por 2016, quando tivemos o afastamento da presidente Dilma. Depois, a prisão injusta do presidente Lula. Mas nós seguimos”, começou o ex-presidente de São Paulo.

“Nós temos uma tarefa enorme no país, que é, em nome da democracia, defender o pensamento, as liberdades desses 45 milhões de brasileiros que nos acompanharam. Temos a responsabilidade de fazer uma oposição colocando os interesses nacionais acima de tudo. Temos um compromisso com a prosperidade desse país”, disse Haddad.

“Vamos continuar nossa caminhada, conversando com as pessoas, nos reconectando com as bases, nos reconectando com os pobres desse país. Daqui a quatro anos teremos uma nova eleição, temos que garantir a instituições. A soberania nacional e democracia, como nós a entendemos, é um valor que está acima de todos nós”, acrescentou.

“Talvez o Brasil nunca tenha precisado mais do exercício da cidadania do que agora”, disse Haddad, pedindo que os eleitores que “não tenham medo”. “Temos uma tarefa enorme que é defender o pensamento, a liberdade desses 45 milhões de votos”, diz Haddad. “Nós não vamos deixar esse país para trás, respeitando a democracia”, finalizou.

Fonte: NMB

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Eleições 2018

STF analisará se Bolsonaro, sendo réu, pode assumir presidência, diz Rosa Weber

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Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / Ag. Brasil

A presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministra Rosa Weber, afirmou, na noite deste domingo (28), que o Supremo Tribunal Federal deverá analisar se o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), por ser réu, pode assumir o cargo. Ela disse também que a corte irá priorizar os julgamentos de pedidos de cassação das candidaturas a presidente de Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT).

A ministra concedeu entrevista coletiva para a divulgação oficial da eleição de Jair Bolsonaro (PSL) ao Palácio do Planalto. Ao abrir espaço a jornalistas, Rosa recebeu várias perguntas sobre a disseminação de fake news durante o pleito deste ano. Ela respondeu que o fenômeno é de “difícil equacionamento” e que o tribunal continuará estudando o tema. “A ênfase de que não há anonimato na internet é reveladora de que há um bom caminho a seguir”, afirmou.

BN

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Eleições 2018

A guinada à direita com Bolsonaro e o discurso que apequenou Haddad

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Foto: Montagem/ Bahia Notícias

O Brasil finalmente poderá colocar um fim à intensa – e tensa – campanha eleitoral de 2018. Com cerca de 58 milhões de voto, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) foi eleito presidente da República e marcou uma guinada à direita na condução das políticas públicas no país. Depois de quatro eleições consecutivas vencidas pelo PT, um candidato de extrema direita chega ao Palácio do Planalto, com um programa de governo ainda repleto de buracos, porém legitimado pelas urnas.

Bolsonaro teve todos os méritos por subverter a lógica da política ao ser candidato por uma legenda nanica, sem infraestrutura e recursos partidários e com uma base eleitoral formada, principalmente, por meio de redes sociais. Apesar de parecerem ligeiramente amadores, os passos do deputado federal parecem ter sido milimetricamente planejados para culminar com essa vitória no segundo turno. O candidato do PSL é, antes de tudo, o grande vencedor das eleições de 2018 – e o seria mesmo que a diferença de votos para o adversário, Fernando Haddad (PT), fosse apertada.

A chegada dele ao comando federal coloca o Brasil na rota das guinadas à direita do sistema político mundial. A tendência era observada fora do país e, até então, não havia dado sinais tão fortes em território brasileiro. Bolsonaro o fez com um discurso conservador e em diversos momentos repulsivo, porém amparado na consolidação do antipetismo, que motivou uma parte expressiva do não voto em Haddad.

O novo presidente fez dois discursos depois de eleito. Um primeiro controlado, na principal ferramenta dele durante a campanha, as redes sociais. Ali, observou-se um Bolsonaro autêntico, falando diretamente para o público que cativou e sem firulas de um candidato. O segundo foi mais simbólico. Planejado e escrito previamente, o deputado federal adotou uma postura de estadista, até então inédita para quem acompanha o tom utilizado por ele ao longo de toda a trajetória política.

Ao que parece, a retórica que o projetou pode ficar em segundo plano para tentar viabilizar os projetos de reforma e de Brasil defendidos por ele. A partir desta segunda-feira (29), a vigilância sobre Bolsonaro vai ser ainda maior e qualquer desvio da promessa de “liberdade” e “democracia” será cobrado muito incisivamente. Será esse o papel da imprensa, mas também da oposição ao novo governo que se forma.

Os opositores, inclusive, começaram mal. O nome mais forte para ocupar a função de porta-voz do outro lado, o derrotado Fernando Haddad, preferiu fazer remissões ao “golpe” contra Dilma Rousseff, à prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, considerada “injusta” por ele, e a eventuais ameaçadas que Bolsonaro traria à democracia. Para quem esperava uma fala de um possível estadista, o petista ficou ligeiramente menor do que poderia ter saído da eleição.

Tal qual 2014, não deve haver espaço para um “terceiro turno eleitoral”. Aceitar que houve uma eleição e que a maioria da população escolheu Bolsonaro, mesmo com as diversas restrições a ele, é dever de todos os brasileiros. Se é a direita que a nação quer que comande o país, a esquerda vai reaprender a ser oposição. E talvez terminemos 2018 mais maduros do que começamos.

BN

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