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Eleições 2018

Haddad, o herdeiro acidental de Lula, tem o desafio de provar que é do PT

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REUTERS Fernando Haddad nesta segunda, ao visitar Lula em Curitiba.

Não faz muito tempo, a fama de Fernando Haddad se restringia aos corredores acadêmicos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), onde era uma espécie de professor-estrela do Departamento de Ciência Política. Sua aula de Teoria Política Moderna, que abarca de Montesquieu a Karl Marx (especialidade de Haddad) era disputada pelos estudantes no início dos anos 2000 —os que não conseguiam se matricular chegavam a pedir pessoalmente a ele para assistirem ao curso, o que, em geral, era educadamente negado por conta da lotação das aulas.

Ele foi aos poucos saindo dos bastidores políticos do PT, onde havia ocupado cargos menores na prefeitura da então petista Marta Suplicy. Em 2005, assumiu o Ministério da Educação, onde permaneceu até 2012, cruzando os Governos Lula e Dilma. Com a visibilidade rendida por programas como o ProUni, que oferecia bolsas de estudo para a população mais pobre, foi lançado candidato a Prefeito de São Paulo. Em seu primeiro teste em uma eleição majoritária, venceu no segundo turno o tucano José Serra. Uma vitória que o cacifou como um possível quadro político de força dentro de um partido que havia perdido seus principais nomes para o Mensalão. Mas a esperança do PT em formar um novo quadro forte paulista durou pouco.

Em menos de seis meses, a lua de mel da população de São Paulo com Haddad acabou. Em junho de 2013, ele via surgir nas ruas de São Paulo um movimento contrário ao aumento de tarifas de transporte público que começou tímido, quase sem peso. Mas acabou incendiado diante das fortes imagens de truculência da Polícia Militar. Em poucos dias, a situação saiu de controle e o professor de ciência política acabou acusado de não ter habilidades políticas por não ter sabido dialogar para conter a revolta. O movimento se espalhou pelo país, aglutinando um caldo difuso de insatisfações de uma classe média descontente com o PT. Foi o primeiro marco importante da crise política brasileira, que culminou no impeachment de Rousseff e se arrasta até hoje, marcando a atual eleição. Nesta época, a popularidade dos políticos do país despencou como um todo, assim como a confiança da população nos partidos em geral.

Pelos anos seguintes, Haddad patinou na prefeitura. Sem dinheiro devido à recessão que iniciava, apostou em políticas mais baratas, como a instalação de uma malha de ciclovias que beneficiou, especialmente, o centro expandido da capital. Apostou ainda em políticas estruturais, mas de difícil percepção popular, como o novo Plano Diretor, que desenhou a cidade até 2030 e foi considerado de altíssima qualidade por urbanistas. Falhou em sua estratégia de comunicação, ao não mostrar claramente o que fez —e quando era questionado sobre isso, argumentava que, com o tempo, a população reconheceria sua gestão e dizia que sua métrica de sucesso não era a reeleição, irritando seu partido. E, por fim, fez menos do que os mais pobres esperavam em áreas caras à população periférica: não reduziu a fila da saúde ou a de vagas nas creches, por exemplo. Perdeu, assim, a reeleição ainda no primeiro turno para o tucano João Doria.

Passados dois anos, nos quais voltou à academia enquanto a crise do PT se aprofundava, o ex-prefeito nunca fez um mea-culpa real de suas falhas políticas, que acabaram custando ao partido as franjas da cidade que sempre foram um bastião, nem fez uma crítica frontal à corrupção praticada por membros de sua sigla —dois fatos com os quais agora deverá ser sistematicamente confrontado durante sua campanha como presidenciável, uma pista que já apareceu com o vazamento nesta segunda-feira da delação do ex-ministro Antonio Palocci, que afirmou que Lula atuava diretamente em pedido de propina.

Numa campanha onde o principal líder político da esquerda foi barrado por suas complicações com a Justiça, Haddad se tornou uma espécie de salvador acidental do PT. Um herdeiro meio por acaso do espólio eleitoral de Lula —um espólio, diga-se de passagem, muito maior do que a expressão política possível de um ex-prefeito que não conseguiu sequer ser reeleito. Não era, por isso, o herdeiro esperado de uma boa parte do partido, que preferia um nome de maior peso no Nordeste —ou que dissesse mais aos eleitores que não fossem a esquerda do centro expandido de São Paulo e suas variáveis pelo Brasil.

Se tem essas debilidades apontadas pelos adversários internos, Haddad se reforça como uma opção capaz de captar os votos progressistas que se afastaram do partido a partir de 2002, primeiro com o fisiologismo das alianças com o MDB de José Sarney; depois, com o Mensalão, e, por fim, com o Petrolão. É um respeitado professor, que empresta ao partido uma imagem de maior retidão que agrada a classe média ideológica decepcionada. Mas, neste caso, ele terá que disputar esse posto com os ex-ministros de Lula Ciro Gomes ou Marina Silva, que estão, segundo o último Datafolha, empatados tecnicamente no segundo posto com Haddad, ao lado do tucano Geraldo Alckmin.

Seja como for, como a lição de São Paulo já mostrou, não é essa parcela da população que decide uma eleição. E a incógnita estará em como um metalúrgico nordestino que se encontra preso e, portanto, impossibilitado de falar pessoalmente com as massas, conseguirá transferir ao menos metade de seus quase 40% de possíveis votos para que um acadêmico paulistano versado em Marx chegue ao segundo turno. Haddad sabe, e foi orientado internamente no PT a fazê-lo, que precisa aprender a falar com o Brasil real, aquele que não disputaria suas aulas da USP, e a mostrar que entende as mazelas que a parcela mais pobre vive, apesar de viver inserido em uma área do país de acumula privilégios. Terá que mostrar que é o PT da origem, ideológico, mas também o consagrado pelo lulismo, para as massas. Terá, antes de tudo, provar que representa o PT —por isso, o partido em suas campanhas deve focar no voto 13, como se Haddad fosse um mero veículo de Lula. Depois, terá de bloquear a ascensão de Ciro no Nordeste —o pedetista alcançou na região 20%, segundo a pesquisa Datafolha desta segunda, enquanto Haddad chegou a 13%, atrás de Jair Bolsonaro, com 14%.

Mas, depois, caso consiga cumprir a tarefa entregue a ele por Lula de chegar por segundo turno, terá que começar tudo de novo, e no sentido contrário. Se chegar à batalha final contra Bolsonaro, um dos prováveis donos da vaga, aí o desafio será o de mostrar que não é tão PT assim, um caminho para conseguir os votos mais moderados, que discordam do radicalismo do militar reformado, mas que, ao mesmo tempo, não suportam Lula. É dupla lição que o professor terá 47 dias para aprender.

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Eleições 2018

O discurso de Haddad após derrota nas urnas: ‘não tenham medo’

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Fernando Haddad (PT) falou pela primeira vez na noite deste domingo (28) após a derrota nas urnas para Jair Bolsonaro (PSL), que foi eleito o novo presidente da República. Ao lado da esposa Estela Haddad e da aliada Manuela D’Ávila (PC do B), que foi sua vice na chapa “O Brasil Feliz de Novo”, o petista discursou em um hotel na cidade de São Paulo e pediu para que os eleitores que votaram nele “não tenham medo”.

“Em primeiro lugar, gostaria de agradecer meus antepassados. Aprendi com eles o valor da coragem para defender a justiça a qualquer preço. Vivemos um período em que as instituições são colocadas à prova a todo instante. A começar por 2016, quando tivemos o afastamento da presidente Dilma. Depois, a prisão injusta do presidente Lula. Mas nós seguimos”, começou o ex-presidente de São Paulo.

“Nós temos uma tarefa enorme no país, que é, em nome da democracia, defender o pensamento, as liberdades desses 45 milhões de brasileiros que nos acompanharam. Temos a responsabilidade de fazer uma oposição colocando os interesses nacionais acima de tudo. Temos um compromisso com a prosperidade desse país”, disse Haddad.

“Vamos continuar nossa caminhada, conversando com as pessoas, nos reconectando com as bases, nos reconectando com os pobres desse país. Daqui a quatro anos teremos uma nova eleição, temos que garantir a instituições. A soberania nacional e democracia, como nós a entendemos, é um valor que está acima de todos nós”, acrescentou.

“Talvez o Brasil nunca tenha precisado mais do exercício da cidadania do que agora”, disse Haddad, pedindo que os eleitores que “não tenham medo”. “Temos uma tarefa enorme que é defender o pensamento, a liberdade desses 45 milhões de votos”, diz Haddad. “Nós não vamos deixar esse país para trás, respeitando a democracia”, finalizou.

Fonte: NMB

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Eleições 2018

STF analisará se Bolsonaro, sendo réu, pode assumir presidência, diz Rosa Weber

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Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / Ag. Brasil

A presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministra Rosa Weber, afirmou, na noite deste domingo (28), que o Supremo Tribunal Federal deverá analisar se o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), por ser réu, pode assumir o cargo. Ela disse também que a corte irá priorizar os julgamentos de pedidos de cassação das candidaturas a presidente de Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT).

A ministra concedeu entrevista coletiva para a divulgação oficial da eleição de Jair Bolsonaro (PSL) ao Palácio do Planalto. Ao abrir espaço a jornalistas, Rosa recebeu várias perguntas sobre a disseminação de fake news durante o pleito deste ano. Ela respondeu que o fenômeno é de “difícil equacionamento” e que o tribunal continuará estudando o tema. “A ênfase de que não há anonimato na internet é reveladora de que há um bom caminho a seguir”, afirmou.

BN

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Eleições 2018

A guinada à direita com Bolsonaro e o discurso que apequenou Haddad

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Foto: Montagem/ Bahia Notícias

O Brasil finalmente poderá colocar um fim à intensa – e tensa – campanha eleitoral de 2018. Com cerca de 58 milhões de voto, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) foi eleito presidente da República e marcou uma guinada à direita na condução das políticas públicas no país. Depois de quatro eleições consecutivas vencidas pelo PT, um candidato de extrema direita chega ao Palácio do Planalto, com um programa de governo ainda repleto de buracos, porém legitimado pelas urnas.

Bolsonaro teve todos os méritos por subverter a lógica da política ao ser candidato por uma legenda nanica, sem infraestrutura e recursos partidários e com uma base eleitoral formada, principalmente, por meio de redes sociais. Apesar de parecerem ligeiramente amadores, os passos do deputado federal parecem ter sido milimetricamente planejados para culminar com essa vitória no segundo turno. O candidato do PSL é, antes de tudo, o grande vencedor das eleições de 2018 – e o seria mesmo que a diferença de votos para o adversário, Fernando Haddad (PT), fosse apertada.

A chegada dele ao comando federal coloca o Brasil na rota das guinadas à direita do sistema político mundial. A tendência era observada fora do país e, até então, não havia dado sinais tão fortes em território brasileiro. Bolsonaro o fez com um discurso conservador e em diversos momentos repulsivo, porém amparado na consolidação do antipetismo, que motivou uma parte expressiva do não voto em Haddad.

O novo presidente fez dois discursos depois de eleito. Um primeiro controlado, na principal ferramenta dele durante a campanha, as redes sociais. Ali, observou-se um Bolsonaro autêntico, falando diretamente para o público que cativou e sem firulas de um candidato. O segundo foi mais simbólico. Planejado e escrito previamente, o deputado federal adotou uma postura de estadista, até então inédita para quem acompanha o tom utilizado por ele ao longo de toda a trajetória política.

Ao que parece, a retórica que o projetou pode ficar em segundo plano para tentar viabilizar os projetos de reforma e de Brasil defendidos por ele. A partir desta segunda-feira (29), a vigilância sobre Bolsonaro vai ser ainda maior e qualquer desvio da promessa de “liberdade” e “democracia” será cobrado muito incisivamente. Será esse o papel da imprensa, mas também da oposição ao novo governo que se forma.

Os opositores, inclusive, começaram mal. O nome mais forte para ocupar a função de porta-voz do outro lado, o derrotado Fernando Haddad, preferiu fazer remissões ao “golpe” contra Dilma Rousseff, à prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, considerada “injusta” por ele, e a eventuais ameaçadas que Bolsonaro traria à democracia. Para quem esperava uma fala de um possível estadista, o petista ficou ligeiramente menor do que poderia ter saído da eleição.

Tal qual 2014, não deve haver espaço para um “terceiro turno eleitoral”. Aceitar que houve uma eleição e que a maioria da população escolheu Bolsonaro, mesmo com as diversas restrições a ele, é dever de todos os brasileiros. Se é a direita que a nação quer que comande o país, a esquerda vai reaprender a ser oposição. E talvez terminemos 2018 mais maduros do que começamos.

BN

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