janeiro 18, 2019 2:35 am
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O mendigo do “Poesia no Beco”: Uma alusão ao advento do Senhor e uma reflexão sobre nós e mundo

Era o dia 07 de dezembro, uma sexta feira, realização do Projeto “Poesia no Beco”, na Rua Shopping, nome americanizado dado ao Calçadão da Juviniano Duarte, nosso antigo Beco do Bazar. Ao cair do crepúsculo, próximo a hora da Ave-Maria, tínhamos terminado de ouvir o Coral da Saudade e algumas poesias de Carlos Santos, quando, depois de muita tentativa de ligação por celular para Denis Alberto, membro da ACLASB, sou surpreendido com meu celular tocando:

_ Alô!
Alô presidente! Por favor, me espere que já estou chegando. Estou chegando fazendo uma zuada. Ok! Você está atrasado para o seu show, mas vou colocar outras pessoas enquanto você chega. Então mais poemas! E agora, Rogério Moreira com seu violão enchendo o Beco do Bazar de música.

Enquanto isso, eu era chamado para dar entrevista ao radialista, quando de repente, avisto distante, mas não distante o suficiente que não desse para perceber, o surgimento de um mendigo no inicio do Beco do Bazar. Mesmo pela pouca distancia, o reconheci. Já tinha visto aquele mendigo em algum lugar.

Alto, forte, chapéu na cabeça caindo sobre os olhos, calça jeans suja com manchas escuras como se fosse carvão, blusão de frio também jeans, rosto sujo ou parecido ter sido lambuzado de pó de carvão ou ainda algum tipo de tinha (guache).

Continuei minha entrevista com o radialista. Enquanto ele aproximava-se de nós, eu já o tinha agora reconhecido quem era mesmo aquele mendigo. Mas me mantive em silêncio. Pensei: _deve ser uma performance artística. Ele veio, falou comigo, com o radialista que por hora, não sabia se me entrevistava ou ria e, saiu falando com todos no calçadão sem ser reconhecido.

Porém onde está o nosso confrade Denis Alberto para sua apresentação? Agora tudo era tomada pela presença do mendigo, que começou a incomodar a todos, pedindo dinheiro, pegando na mão de um e de outro.

Os confrades Jackson Santana e Conceição Lins começaram a preocupar-se com a demora de Denis Alberto. Os policiais militares já começavam a irritar-se com o mendigo que entrava e saia pelo espaço do evento com as mesmas ações, pegando na mão de todos, pedindo dinheiro e ‘claro’ o povo esquivando-se devido ao aspecto sujo do mendigo.

Como eu já o conhecia e percebi que os policiais poderiam ser mais enérgicos com ele e poderia talvez até machuca-lo, aproximei-me do soldado e pedi que o deixasse à vontade que eu o conhecia. O soldado, então, pediu desculpas, saiu rindo e, claro, falou aos companheiros do que se tratava. Sorriram entre si.

Autorizei que aos confrades cerimonialistas do evento no momento, Jackson Santana e Conceição Lins, anunciassem a presença do confrade Denis Alberto. Então, anunciaram: _com vocês caro publico, o show com o nosso confrade da ACLASB, Denis Alberto que vai encher o Beco do Bazar com música.

O povo aplaudiu e nada de Deis Alberto. Quem estava justamente no palco? O mendigo, mais uma vez incomodando. Querendo pegar na mão de Conceição Lins e de Jackson Santana. Ela se retirou, Jackson deu uma bronca no mendigo e se retirou. Mas, antes eu falei: _Dá o microfone pra ele, talvez ele queira falar alguma coisa.

Como os dois retiraram-se e eu fiquei, passei o microfone para o mendigo e ele então se apresentou: _Boa noite caro público, eu sou Denis Alberto, membro da Academia de Letras e Artes de Senhor do Bonfim – ACLASB.

E todos começaram a rir. Uns pouquíssimos sabiam do que se tratava, os policiais e eu, outros riam de si mesmos, pelas suas atitudes diante do mendigo, outros riam dos outros, e ainda outros riam da caracterização bem feita do musico, poeta, compositor e membro da ACLASB, Denis Alberto.

Então Denis Alberto começou a falar da chegada do natal, do nascimento de Jesus que, sendo rei, veio pobre e também desprezado pelas pessoas, foi ignorado, como ele, (o ator) foi ignorado, esquivado, excluído nesse evento, pelos amigos, pessoas, artistas, policiais, porque não o reconheceram, porque estava mal vestido, porque estava sujo.

E ele citou várias passagens bíblicas falando do Advento do Senhor, dessa preparação da chegada do Cristo e nos deixou uma reflexão profunda sobre a atualidade e, acima de tudo, sobre nós mesmos. Entre várias citações bíblicas, passagens da história de pessoas excluídas da sociedade daquelas épocas, citou o evangelista Lucas:

(…) Enquanto la estavam , completaram-se para o parto, e ela (Maria) deu a luz ao seu primogênito, envolveu-o com faixas e reclinou-o numa manjedoura, porque não havia luar para eles na sala(…). (Lc 2, 1-20). Quais foram os primeiros a receber a noticia do nascimento de Jesus? Os pastores que cuidavam das ovelhas, depois os Reis Magos do Oriente, esse reis não faziam parte do povo judeu, mas, era isso, tudo isso foi revelado primeiramente aos simples, aos excluídos, aos pobres, aos injustiçados.

Hoje mais do que nunca, somos chamados a refletir sobre nós mesmos, sobre atualidade. Ultimamente, principalmente esse ano que se finda, mas, especificamente durante as eleições para presidente, governadores, senadores, deputados estaduais e deputados federais, presenciaram a incitação ao ódio, ao preconceito, a discriminação. Pela disputa do poder tudo valia.

Vi e ouvi “cristãos” em nome da religião falar e desejar o extermínio de pessoas ou pena de morte fazendo-se de Deus. Vi e ouvi discursos de ódios contra as pessoas que pensam diferentes, que acreditam em outra religião, contra pessoas sexualmente diferentes. Vi e ouvi uma campanha politica pautada em fake news, ou seja, pautada na mentira (muitos seguindo o pai da mentira, o diabo). Vi e ouvi as faces da crueldade e da pobreza e miséria de espirito do ser humano, implorando ditadura, tortura, arma e sangue.

Mas, o mais absurdo, que tudo era em nome de “Deus, da religião, da moral, dos bons costumes”. E mesmo depois de tudo ainda vemos nas redes sociais essa onda maléfica de discursos falsos, hipócritas e demagogos até mesmo de “religiosos”.

Esse mendigo do Poesia no Beco veio nos chamar atenção para o que realmente estamos fazendo das nossas vidas, dos nossos dias aqui na terra. O que estamos fazendo com o mundo e com o Brasil. Temos que deixar de lado nossas arrogâncias religiosas, intelectuais, pensando que somos melhores que os outros, porque quando partirmos tudo isso fica, tudo isso não terá importância para onde iremos.

E temos que tomar cuidado para que nossas palavras malditas, nossas ações de intolerância não sejam o fardo pesado que teremos que levar quando partirmos, e que estes não sejam os empecilhos para alcançarmos o/a (paraíso, eternidade) ou outra denominação dado de acordo com as diversas religiões, para um lugar melhor depois da morte.

E ainda com a reflexão proporcionada pelo Mendigo do Poesia no Beco e invadido pelo espirito natalino, momento este, não para o consumismo mas, para confraternizarmos, vamos nos libertar dessa mesquinhez, dessa hipocrisia e deixarmos de julgar e condenar os outros como se fossemos Deus, porque só Ele pode e, mesmo assim, Ele é misericordioso, amoroso, paciente e justo.

Obrigado ao confrade Denis Alberto por ter proporcionado naquele dia 07 de dezembro, numa sexta-feira, sobre o cair do crepúsculo, representado naquele mendigo, essa reflexão. Porque quando o AMOR for tudo em todos, seremos seres humanos melhores, compreenderemos o outro, respeitaremos os diferentes de nós e seremos cidadãos do “mundo”.

Se assim não for, nunca deixaremos de está somente na nossa caverninha que Platão falava, vendo tudo através das nossas próprias sombras, trancados no nosso “mundinho”, sem ser nunca a Luz de Jesus que brilha ou que quer brilhar em nós e iluminar o mundo.

Aproveito o ensejo e desejo um Feliz Natal a todos os familiares, confrades e confreiras da ACLASB, amigos, conhecidos, companheiros, apoiadores, desconhecidos, mendigos e excluídos da sociedade, dos governos, da justiça e das religiões. Que Deus abençoe a todos e a cada um com graças e abundancia de vida, porque Ele é o Deus da vida e não da morte. Felicidades e um abraço a todos!

*EDVAN CAJUHY – Presidente da Academia de Letras e Artes de Senhor do Bonfim – ACLASB

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