novembro 16, 2018 4:08 am
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O silêncio que precede o esporro

Foto: Divulgação

O nível dos parlamentares brasileiros há muito deixa a desejar. Como diria Ulysses Guimarães, a próxima legislatura sempre será pior. Eis que, antes de tomar posse, já iniciamos a série de sustos com a declaração da quarta deputada federal mais votada da Bahia, Dayane Pimentel, sobre um possível patrulhamento ideológico da cultura e da educação durante o governo de Jair Bolsonaro. Em entrevista ao Bahia Notícias, a presidente do PSL no estado sugeriu que o novo presidente será o “grande fiscalizador” cultural e intelectual das “piores perspectivas” da esquerda sobre os temas na Bahia. E, por incrível que pareça, as reações foram menores do que deveriam.

Falta habilidade política para Dayane. Nenhuma surpresa até então. Ela foi alçada à Câmara na onda bolsonarista do Brasil e papas na língua nunca foi uma característica intrínseca do futuro presidente. No entanto, a simples sinalização de que haveria um “grande fiscalizador” sobre questões culturais e intelectuais é um alerta que há dormente em nossa sociedade um viés censor para manifestações diferentes do pensamento majoritário no ambiente político. A presidente do PSL foi eleita sobre essa plataforma, tal qual o padrinho no Palácio do Planalto, e não existe nenhum temor em expor essa condição.

É inegável, todavia, que o discurso está dentro do script pregado ao longo do processo eleitoral de 2018. O patrulhamento ideológico deve permear uma parte expressiva das ações do segmento conservador e, portanto, se esperaria uma reação virulenta contra as menções ao tema. Não aconteceu. Pelo menos nesse primeiro momento após a confirmação de Bolsonaro na Presidência da República. É como se uma letargia tivesse tomado conta daqueles que até o domingo ainda pregavam a liberdade civil e intelectual.

Nem todos ficaram calados. Na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa da Bahia, por exemplo, algumas vozes reverberaram criticamente o posicionamento de Dayane. O Ministério Público Federal e o Ministério Público do Estado da Bahia emitiram recomendações para evitar que as instituições de ensino se sintam coagidas a reduzir os debates e as construções plurais típicas do ambiente escolar e intelectual. É pouco. O governo da Bahia, por exemplo, praticamente se omitiu. Os secretários de Educação e Cultura, os mais afetados pela declaração dela, se recusaram a falar.

A cantora Daniela Mercury, que se tornou porta-voz de um movimento contrário à eleição de Bolsonaro, voltou a chamar a atenção para a possibilidade do que ela chamou de “controle da liberdade de expressão em nossa democracia”. É inegável que a dirigente do PSL na Bahia deu amplas margens para ficarmos com receio de um patrulhamento despropositado. Afinal, o que é cultura? Ou o que é intelectualmente reprovável?

Depois da repercussão negativa, Dayane Pimentel recuou. Afirmou ser contrária a “qualquer tipo de censura”, citando os lugares-comuns da Venezuela e de Cuba como ditaduras de esquerda. Mesmo estando certa sobre as restrições nos dois países, a futura deputada federal propôs cercear liberdades, com base no espectro ideológico diametralmente oposto. É a construção de um silêncio que, inevitavelmente, precederá um esporro.

BN

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