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Economia

Bitcoin é bolha? Crescimento extraordinário no ano atrai investidores e divide economistas; entenda

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Moeda ilustrativa de bitcoin, em meio a notas de dólar. (Foto: Dado Ruvic/Reuters)

Os investimentos em bitcoin deixaram de ser coisa de nerd e conquistaram pessoas que pouco entendem de tecnologia ou de aplicações mais arriscadas, como a bolsa de valores. Os ganhos estratosféricos atraem investidores novatos para a moeda virtual. Mas, para alguns economistas e para o Banco Central brasileiro, o bitcoin é uma bolha financeira, um investimento não recomendado e com “riscos imponderáveis”.

Só neste ano, a moeda virtual subiu cerca de 900%. Quem investiu em bitcoin conseguiu multiplicar seu capital e isso atrai novos investidores para a moeda virtual. Nas primeiras horas de quarta-feira (29), o bitcoin superou o valor de US$ 10.000.

Criada em 2008, o bitcoin é uma moeda virtual. Ao contrário de outras moedas, como o dólar ou o real, o bitcoin não é emitido pelo Banco Central de um país. O responsável por sua “criação” é um complexo programa de computador. Os investidores compram e vendem bitcoins, que ganham ou perdem valor de acordo com a demanda pela moeda, de uma forma similar a uma ação vendida na bolsa de valores.

O bitcoin pode ser usado para comprar produtos e serviços físicos. Mas também pode ser trocado em casas de câmbio por outras moedas.

A primeira transação no mundo real a usar bitcoin ilustra bem a escalada de preços da moeda virtual. Em 2010, um entusiasta comprou duas pizzas por 10 mil bitcoins. Na época, pareceu um bom negócio: a soma não passava de US$ 40. Na cotação atual, as duas pizzas custariam quase US$ 100 milhões.

Novatos e ‘experts’

O público que compra bitcoin atualmente é bem distinto e reúne tanto pessoas bem informadas sobre aplicações financeiras a investidores iniciantes.

A veterinária Ceila Rossi, de 40 anos, por exemplo, não possuía nenhum investimento até comprar bitcoins em março deste ano, incentivada por um amigo distante. Ele até tentou destrinchar a tecnologia por trás da moeda virtual para amiga.

“Eu falei assim: ‘Pode parar com a explicação, porque eu não consigo entender. É muito fora de onde eu estou acostumada a trabalhar’”, disse. Mesmo sem entender como funciona o bitcoin, a veterinária comprou a moeda virtual, atraída por um passado de valorização e pela liquidez da divisa.

“A qualquer hora eu posso resgatar. É diferente de outros investimentos, em que você tem que esperar um tempo para retirar.”

Anderson Brito, analista de 25 anos, que investe em bitcoin. (Foto: Arquivo Pessoal/Anderson Brito)

Outro novato no mundo de bitcion é o analista Anderson Brito, de 25 anos. Antes de comprar bitcoin, ele mantinha o seu dinheiro todo aplicado na caderneta de poupança, um dos investimentos mais conservadores do país.

Incentivado por um amigo, aplicou um valor pequeno, menos de R$ 400, porque a tecnologia ainda é nebulosa para ele.

“Eu sou um cara muito conservador e não gosto de investir muito porque não tenho muito dinheiro para isso. “

Entre os novos investidores não há apenas iniciantes no mundo das aplicações. A advogada Caroline Savaron Giusti, de 28 anos, já investia em fundos, mas resolveu apostar no bitcoin e já pensa em comprar outras moedas criptográficas.

Já o representante comercial Elso Lima, de 50 anos, viu no bitcoin uma chance para diversificar seus investimentos e buscar retornos maiores em um momento em que a taxa de juros caiu no Brasil. Para ele, o bitcoin “é um ativo de muito risco”, mas com maiores possibilidades de retorno, como a Bolsa de Valores.

“Os juros no Brasil estão baixando muito. A gente tinha uma rentabilidade nas aplicações financeiras, que agora estão caindo radicalmente. Você aplicava em fundos de renda fixa, DI, multimercados e tinha retorno de 15% ao ano. Agora, para 7%, 8%”, disse.

Volume de bitcoins

Estimativas da CoinDesk, uma das maiores casas de câmbio do mundo de moedas virtuais, apontam que há cerca de 16,7 milhões de bitcoins em circulação pelo mundo e que elas somam cerca de US$ 166 bilhões.

No Brasil, são 12 as casas de câmbio que trocam bitcoin por reais e dólares. A Foxbit, que é uma exchange de bitcoin, movimenta mais de meio bilhão de reais ao ano.

João Canhada, presidente-executivo da Foxbit, casa de câmbio de bitcoin. (Foto: Divulgação/Foxbit)

É ou não é bolha?

A valorização dos bitcoins divide opiniões:

  • tem quem veja nisso um indício de formação de uma bolha especulativa e;
  • quem acredite ser efeito do aumento da confiança na tecnologia que sustenta o bitcoin.

Durante bolhas, os preços de ativos se descolam de mensurações reais, explica Fernando Nogueira da Costa, professor da Unicamp. A partir daí, há um movimento que se retroalimenta: investidores correm para comprar; a demanda maior faz o preço subir; mais investidores são atraídos, e por aí vai, até a bolha estourar e o preço do ativo desabar.

É fato: o valor do bitcoin disparou e muito. Se em 1º de janeiro deste ano, o preço de venda era de US$ 997,96, nesta segunda-feira (27), era de US$ 9.688. Até agora, a alta acumulada no ano só não é maior do que a registrada em:

  • 2011, quando o valor saltou 1.290%, de alguns centavos para pouco menos de US$ 5;
  • 2013, quando a guinada foi de 5.590%, após o FBI passar a ser dono da maior carteira de bitcoin do mundo. Isso ocorreu após a polícia federal norte-americana ter fechado a Silk Road, a maior loja virtual do submundo da internet e que aceitava apenas bitcoins.

Há cerca de 1,3 mil moedas virtuais circulando pela internet. O preço do ether, por exemplo, subiu 4791% no acumulado do ano.

Por que subiu?

Os dois lados explicam a elevação da moeda em 2017 de formas diferentes. Para especialistas que veem no bitcoin uma inovação tecnológica, a valorização é resultado de que países e empresas financeiras confiam nele.

“Ele está sendo legitimado pelo mercado cada vez mais. A gente vê, por exemplo, países mais abertos a inovação e à liberdade econômica, como Japão e Suíça, tendo regulações e legislações menos restritivas e até amigáveis à criptomoeda”, afirma Fernando Ulrich, economista-chefe para criptomoedas da XP Investimento.

Diversos bancos já investem em títulos corrigidos pela variação do bitcoin. Mas a sinalização do mercado financeiro mais expressiva a favor do bitcoin veio da Bolsa de Chicago. A centenária Chicago Mercantile Exchange anunciou que, até o fim deste ano, irá negociar contratos futuros da moeda, para atender ao “crescente interesse de clientes no crescente mercado das criptomoedas”.

Executivos de instituições financeiras, por sua vez, acreditam que os valores crescentes não passam de uma corrida especulativa, típica de bolhas financeiras.

“A única razão hoje para comprar ou vender bitcoin é fazer dinheiro, o que é a definição mais precisa de especulação e define uma bolha”, afirmou Tidjane Thiam, CEO do Credit Suisse, no começo de novembro, durante a conferência de resultados do banco.

Presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn; para ele, bitcoin é uma bolha especulativa (Foto: Laís Lis/G1)

A opinião do presidente do Banco Central do Brasil, Ilan Goldfajn, vai na mesma linha. “Isso é a típica bolha ou pirâmide que existem na economia há centenas de anos”, afirmou, em um evento em São Paulo.

As manifestações mais contundentes, no entanto, partem de Jamie Dimon, presidente-executivo do JP Morgan. Ele já disse que funcionários flagrados negociando bitcoin não teriam vida fácil no banco.

“Seria demitido em um segundo, por duas razões: é contra nossas regras e eles são estúpidos, e ambas as coisas são perigosas”.

Poucos dias depois após Dimon dar essa declaração, o JP Morgan foi um dos maiores compradores de títulos de investimento que são corrigidos pela cotação do bitcoin na Suécia. Uma empresa do país viu nisso uma tentativa do banco manipular o mercado e entrou com uma reclamação junto à autoridade financeira sueca.

Sem regulação

O fato de o bitcoin ser uma moeda puramente virtual, que não é regulada ou emitida por nenhuma autoridade financeira, é o maior ponto de preocupação dos críticos.

“Não há, no arcabouço legal e regulatório relacionado com o Sistema Financeiro Nacional, dispositivo específico sobre moedas virtuais. O Banco Central do Brasil, particularmente, não regula nem supervisiona operações com moedas virtuais”, informou na última semana o BC.

Tidjane Thiam, CEO do Credit Suisse, acredita que a falta de regulamentação abre até brecha para a moeda ser usada para negócios ilícitos.

“Eu acredito que a maioria dos bancos, no atual estado da regulação, tem pouco ou nenhum apetite de se envolver com uma moeda como essa, com tantos desafios para evitar a lavagem de dinheiro.”

A transferência de valores de bitcoins é feita entre “carteiras”, que existem nos computadores dos usuários. Todas as transações são registradas em um sistema aberto ao público, chamado de “blockchain” –é possível conferir quem mandou qual quantia para quem, desde que você saiba o código da carteira dos dois. As operações são agrupadas em blocos, depois incorporados a uma corrente –é a sequência de transferências que pode ser acessada.

Moeda ilustrativa do bitcoin, em meio a placa-mãe de computador. (Foto: Dado Ruvic/Reuters)

O Banco Central diz que o bitcoin não tem seu valor atrelado a um bem real, nem garantia de conversão. Para a autoridade monetária brasileira, confiança é só o que bitcoin tem:

“[O bitcoin] não têm garantia de conversão para moedas soberanas, e tampouco são lastreadas em ativo real de qualquer espécie, ficando todo o risco com os detentores. Seu valor decorre exclusivamente da confiança conferida pelos indivíduos ao seu emissor.”

Um dos riscos do bitcoin é ele deixar de ser aceito e o investidor ficar com um mico na mão. A China já proibiu as casas de câmbio da moeda no país e neste ano barrou as ofertas públicas de criptomoedas (ICOs, na sigla em inglês). Esse instrumento é encarado como substituto dos investimentos de capital de risco para startups de tecnologia se financiarem.

E se for bolha?

Se for uma bolha, o seu valor não é real e ela pode “estourar”. Quando – e se – isso ocorrer, o preço da moeda virtual vai desabar e muitos investidores vão perder dinheiro.

Mas é verdade que muita gente ganha dinheiro nas bolhas especulativas. São pessoas que surfam na onda da valorização e saem do negócio antes que seu preço desabe. Os próprios defensores da moeda virtual enxergam essa possibilidade.

“Para mim, o bitcoin tem valor. Agora, se o preço é US$ 5 mil ou US$ 7 mil, eu não sei. Parte do valor que está nesse preço, eu chamo de ‘dinheiro burro’. Gente que entrou, porque todo mundo entrou e vai tomar um fumo na hora que todo mundo correr, porque vai acontecer um comportamento de manada digital. Acho que tem uma grande chance de a gente ter uma mudança de rota, uma recalibragem para em torno de US$ 5 mil”, afirma Oliver Cunningham, sócio da consultoria KPMG.

O investidor Anderson Brito não descarta uma queda abrupta dos preços. “Eu só acho que isso não vai acontecer agora”, diz.

João Canhada, presidente-executivo da casa de câmbio Foxbit, não acredita que a bolha seja um problema. “Todos os bancos, todos os fundos estão falando de bitcoin. Por isso, ainda há muito potencial para subir e não é bolha. Talvez seja uma bolha, mas tudo bem. Só que ela é uma bolha que vai inflar muito ainda.”

O BC, no entanto, alerta que, após o estouro de uma bolha, sobra pouca coisa. De acordo com o BC, a compra e a guarda de moedas virtuais com finalidade especulativa “estão sujeitas a riscos imponderáveis, incluindo, nesse caso, a possibilidade de perda de todo o capital investido, além da típica variação de seu preço”.

G1

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Economia

Petrobras eleva preço da gasolina nas refinarias

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Petrobras elevará o preço médio da gasolina nas refinarias em 0,15 real, para 1,98 real por litro, a partir de terça-feira, enquanto manterá o valor do diesel, informou a petroleira estatal nesta segunda-feira, após avanço das cotações internacionais do petróleo nas últimas semanas.

A Petrobras reiterou que seus preços têm como referência a chamada paridade de importação, impactada por fatores como os valores do petróleo e o câmbio, de acordo com comunicado enviado pela assessoria de imprensa.

O repasse dos reajustes nas refinarias aos consumidores finais nos postos não é garantido, e depende de uma série de questões, como margem da distribuição e revenda, impostos e adição obrigatória de etanol anidro e biodiesel.

epocanegocios

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Economia

A inflação vai voltar depois da pandemia?

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Os economistas adoram discordar, mas quase todos concordam que a inflação acabou. A premissa da inflação baixa está embutida nas políticas econômicas e nos mercados financeiros. É por isso que os bancos centrais podem cortar as taxas de juros para quase zero e comprar montanhas de títulos do governo. A inflação baixa também explica por que os governos conseguiram entrar numa farra épica de gastos e empréstimos para salvar a economia da devastação pandêmica – e por que os 125% do PIB de dívida pública do mundo rico mal suscitam preocupação. A busca por rendimento impulsionou o índice de ações S&P 500 para novas altas, mesmo com mais de 100 mil americanos hospitalizados com covid-19. A única maneira de justificar essa alta no mercado de ações seria esperar uma recuperação econômica forte, mas sem inflação, a partir de 2021.

No entanto, como explicamos, um grupo cada vez mais eloquente de dissidentes que pensa que o mundo pode sair da pandemia para uma era de inflação mais alta. Seus argumentos não chegam a ser arrebatadores, mas também não são vazios. Mesmo uma pequena probabilidade de enfrentar um aumento da inflação é preocupante, porque o estoque da dívida está muito grande e os balanços dos bancos centrais estão inchados. Em vez de ignorar o risco, os governos precisam agir agora para se protegerem dessa possibilidade.

Nas décadas desde que Margaret Thatcher alertou sobre o ciclo vicioso de preços e salários que ameaçava “destruir” a sociedade, o mundo rico passou a tomar a inflação baixa como algo natural. Antes da pandemia, nem mesmo um mercado de trabalho extremamente apertado conseguiu elevar os preços, e agora há exércitos de pessoas desempregadas. Muitos economistas acham que o Ocidente, especialmente a zona do euro, está seguindo o caminho do Japão, que caiu em deflação na década de 1990 e desde então tem lutado para elevar os preços acima de zero.

Prever o fim dessa tendência é uma espécie de apostasia. Depois da crise financeira, alguns falcões alertaram que a compra de títulos pelos bancos centrais (conhecida como flexibilização quantitativa, ou QE, na sigla em inglês) iria reacender a inflação. Ficaram com cara de bobo.

Mas hoje os argumentos dos inflacionistas estão mais fortes. Um risco é de uma explosão temporária da inflação no ano que vem. Em contraste com o período que se seguiu à crise financeira, amplas medidas para oferta de moeda dispararam no mundo rico em 2020, uma vez que os bancos vêm emprestando livremente. Presas em casa, as pessoas não conseguiram gastar todo o seu dinheiro e seus saldos bancários aumentaram. Mas, uma vez vacinados e libertados da tirania do Zoom, os consumidores mais exuberantes podem entrar numa onda de gastos que venha a superar a capacidade das empresas de restaurar e expandir sua oferta, fazendo com que os preços subam. A economia global já mostra sinais de gargalos. O preço do cobre, por exemplo, está 25% superior ao do início de 2020.

O mundo deveria ser capaz de administrar essa explosão temporária de inflação. Mas o segundo argumento inflacionista é que surgirão também pressões de preços mais persistentes, à medida que as forças desinflacionárias estruturais forem revertidas. No Ocidente e na Ásia, muitas sociedades estão envelhecendo, gerando escassez de trabalhadores. Durante anos, a globalização baixou a inflação, criando um mercado mais eficiente para bens e trabalho. Agora, a globalização está batendo em retirada.

O terceiro argumento dos inflacionistas é que os políticos e as autoridades são complacentes. O Federal Reserve diz que quer que a inflação ultrapasse sua meta de 2% para compensar o terreno perdido; o Banco Central Europeu – que estava para anunciar mais estímulos depois do fechamento desta matéria – ainda pode seguir o mesmo rumo. Sobrecarregados pela necessidade de pagar pelo envelhecimento da população e pelos cuidados de saúde, os políticos preferirão cada vez mais os grandes déficits orçamentários.

Esses argumentos estão corretos?

É perfeitamente possível uma subida temporária da inflação no ano que vem. No início, seria algo bem-vindo – um sinal de que as economias estavam se recuperando da pandemia. E inflacionaria uma modesta quantia de dívidas. Os formuladores de políticas poderiam até respirar aliviados, especialmente no Japão e na zona do euro, onde os preços estão caindo (embora mudanças rápidas no padrão de gastos do consumidor possam ter confundido as estatísticas).

As chances de um período de inflação mais sustentado continuam baixas. Mas se os bancos centrais tiverem de aumentar as taxas de juros para impedir que os aumentos de preços fujam do controle, as consequências podem ser graves. Os mercados iriam desabar e as empresas endividadas, vacilar. Mais importante, o custo total das contas vastamente expandidas do Estado – tanto a dívida dos governos quanto os passivos dos bancos centrais – ficaria alarmantemente exposto. Para entender o porquê, é necessário examinar como eles estão organizados.

Apesar de toda a conversa sobre “travar” as baixas taxas de juros de longo prazo, o segredo sujo dos governos é que eles têm feito o oposto: estão emitindo dívidas de curto prazo, apostando que as taxas de juros de curto prazo permanecerão baixas. O prazo médio dos títulos do Tesouro americano, por exemplo, caiu de 70 para 63 meses. Os bancos centrais têm feito uma aposta semelhante. Como as reservas que eles criam para comprar títulos têm uma taxa de juros flutuante, elas são comparáveis a empréstimos de curto prazo. Em novembro, o órgão fiscal da Grã-Bretanha alertou que uma combinação de nova emissão com QE deixara os custos do serviço da dívida do Estado duas vezes mais sensíveis às taxas de curto prazo do que eram no início do ano, e quase três vezes mais do que em 2012.

Então, embora a probabilidade de um susto inflacionário possa ter aumentado apenas um pouco, suas consequências podem ser muito piores. Os países precisam se proteger contra esse risco, reorganizando seus passivos. Os governos devem financiar o estímulo fiscal emitindo dívida de longo prazo. A maioria dos bancos centrais deve iniciar uma reversão ordenada da QE e afrouxar a política monetária, deixando as taxas de juros de curto prazo negativas. Os ministérios das finanças devem incorporar os riscos assumidos pelo banco central em seus orçamentos (e a zona do euro precisa encontrar uma ferramenta melhor do que a QE para reorganizar as dívidas de seus estados-membros). Encurtar o vencimento das dívidas do estado – como em 2020 – deve ser apenas um último recurso e não pode se tornar a principal ferramenta de política econômica.

Em louvor à naftalina

Os inflacionistas provavelmente estão errados. Até o arquimonetarista Milton Friedman, que inspirou Thatcher, admitiu já no fim da vida que o vínculo de curto prazo entre a oferta de moeda e a inflação havia se rompido. Mas a pandemia de covid-19 mostrou a importância da preparação para eventos raros, mas devastadores. O retorno da inflação não deve ser exceção.

Estadão

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Economia

PIB tem crescimento recorde de 7,7% no 3º trimestre, mas não recupera perdas da pandemia

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© Marcelo Chello/Estadão – 2/12/2020

Uma maior reabertura das atividades em meio à pandemia e o impulso dado pelo auxílio emergencial fizeram a economia registrar no terceiro trimestre o maior crescimento em duas décadas. O Produto Interno Bruto (PIB, o valor de tudo o que é produzido na economia) saltou 7,7% ante o segundo trimestre, informou nesta quinta-feira, 3, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Embora seja mais forte do que o esperado no início da crise, a retomada ainda é insuficiente para recuperar as perdas do primeiro semestre.

Tanto que o PIB registrou queda de 3,9% na comparação com igual período de 2019. A retração do PIB em 2020 deverá ficar em 4,50%, conforme pesquisa do Projeções Broadcast feita antes da divulgação dos dados do IBGE. Ainda que menor do que as primeiras projeções, feitas quando a covid-19 se abateu sobre a economia, se confirmada, será a maior queda anual da história – a mais intensa até hoje foi registrada em 1990 (-4,35%), na série histórica iniciada em 1901.

Em parte, a forte alta do terceiro trimestre se explica por um efeito estatístico. O salto se segue ao recuo de 1,5% no primeiro trimestre ante o quarto trimestre de 2019 e ao tombo, também recorde, de 9,6% no segundo trimestre.

De abril a junho, a retração foi tão pior do que em outras crises porque a economia foi “desligada” no início da pandemia, diz Eduardo Zilbermann, professor do Departamento de Economia da PUC-Rio, numa referência às regras de restrição ao contato entre as pessoas.

Como explica Zilbermann, o PIB é uma medida de fluxo, de quanto se gera de valor continuamente ao longo do tempo. Em outras crises – causadas por inflação, desequilíbrios nas contas externas ou bolhas financeiras, etc. -, as empresas entram em dificuldade, suspendem investimentos e demitem funcionários, ou a renda das famílias é corroída, e elas consomem menos. Assim, lojas vendem menos, mas seguem vendendo. Indústrias veem a demanda caindo e reduzem a produção, mas seguem produzindo. E o fluxo se reduz na comparação com períodos anteriores.

Só que o “desligamento” na pandemia fechou lojas, que não podiam receber clientes, e fábricas, que não podiam aglomerar trabalhadores. Vendas e produção foram para perto de zero, uma enorme queda na comparação com os fluxos de períodos anteriores. Mesmo que a parada para valer tenha ocorrido em abril, o fundo do poço, a reabertura gradual a partir de maio foi insuficiente para salvar o PIB do segundo trimestre, formado pelo fluxo contínuo em cada um dos meses.

No terceiro trimestre, bastou a economia passar todo o período “religada” para o fluxo de valor gerado ficar muito acima do registrado no PIB do segundo trimestre, explica Zilbermann. Mesmo assim, esse fluxo foi inferior ao registrado nos trimestres de 2019, antes da pandemia. Por isso, a alta recorde sobre o trimestre imediatamente anterior não significa o fim da crise.

O quadro só não foi pior por causa das medidas do governo federal para mitigar a crise, como o auxílio emergencial para trabalhadores informais e as complementações de renda dos trabalhadores formais que tiveram suas jornadas de trabalha suspensas ou reduzidas.

“A recuperação no Brasil foi melhor do que nos pares na América Latina. Atribuo isso às políticas fiscal e creditícia”, diz Zilbermann.

Economistas já vinham ressaltando que o auxílio emergencial – que começou em R$ 600 ao mês e passou a R$ 300 por mês desde setembro – impulsionaria a economia. Nos primeiros meses, a renda extra chegou a tirar milhões de brasileiros da extrema pobreza, mas uma reversão nesse movimento já a partir de setembro reforçou seu caráter temporário. O consumo das famílias cresceu 7,6% sobre o segundo trimestre, puxando a recuperação.

Só que mesmo o avanço do consumo trouxe traços “heterogêneos” e “disfuncionais” da recuperação, segundo Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV). Com as famílias ficando mais em casa, mesmo após a flexibilização das restrições em várias cidades, o consumo de bens, especialmente os essenciais, como alimentos, avançou mais.

Segundo Silvia, essas peculiaridades levam incerteza sobre a recuperação. Os níveis de atividade da indústria de transformação e do comércio podem não se manter com a normalização dos hábitos das famílias. Além disso, o consumo tende a perder impulso sem o auxílio emergencial, a partir de janeiro. A pesquisadora do Ibre/FGV vê a economia com crescimento nulo, ou até novas quedas, no primeiro semestre de 2021.

Por isso, a manutenção do auxílio emergencial no próximo ano, ou sua substituição por um programa mais abrangente do que o Bolsa Família, tem dividido o debate entre economistas. Para Silvia, a economia brasileira está “entre a cruz e a espada”. De um lado, sem os gastos com transferência de renda, o consumo perde impulso. De outro, sem um remanejamento das despesas, os novos gastos agravam o rombo nas contas públicas, elevam o endividamento público, dificultam a rolagem da dívida do governo, elevam juros, aumentam a cotação do dólar e poderão pressionar a inflação – o que acabaria por minar a recuperação do PIB.

No outro lado do debate, há economistas que veem a elevação da dívida pública e a ampliação do rombo nas contas do governo como menos preocupantes, já que vários países estão fazendo o mesmo e os juros estão baixos no mundo todo.

A indicação de Janet Yellen, ex-presidente do Fed (o banco central americano) como secretária do Tesouro do governo do presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, sinalizou para mais gastos públicos para mitigar a crise em 2021. Nomes como o ex-secretário de Tesouro americano Larry Summers e o ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) Olivier Blanchard vêm defendendo mais despesas dos governos de países desenvolvidos para ajudar na recuperação da economia.

Para José Oreiro, professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB), no início do próximo ano, a economia ainda não terá se recuperado da queda do primeiro semestre deste ano, o desemprego estará elevado e há chance de uma segunda onda de contágio da pandemia ganhar força. Nesse quadro, sem a prorrogação do estado de calamidade pública, em vigor até 31 de dezembro, o teto de gastos públicos voltará a valer. O governo será obrigado a fazer um forte corte nas despesas.

“Se retiramos o auxílio de maneira súbita, que é o cenário que se coloca hoje, vamos entrar em recessão em 2021 de novo”, diz Oreiro.

Apesar das divergências sobre política econômica, há consenso num ponto: a principal variável a determinar os rumos da retomada será mesmo a pandemia. Uma segunda onda que ganhe força, acelerando o crescimento do número de casos e de mortes poderá exigir novas medidas de restrição ao contato social, atingindo novamente a economia. O sucesso no controle da doença e a eventual vacinação em massa ao longo de 2021 levarão mais pessoas às ruas, ampliando o consumo e acelerando a recuperação.

Estadão

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