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Economia

Governo publica MP que muda nome do Coaf e o transfere para o Banco Central

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O governo federal publicou nesta terça-feira (20) no “Diário Oficial da União” a Medida Provisória (MP) editada pelo presidente Jair Bolsonaro que transfere o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) para o Banco Central (BC) e muda o nome do organismo para Unidade de Inteligência Financeira.

O BC divulgou nota na segunda (19) antecipando que o Coaf seria transferido do Ministério da Economia para a instituição, uma das principais autoridades monetárias do país.

Segundo o texto publicado, a Unidade de Inteligência Financeira terá autonomia técnica e operacional e atuará em todo o território nacional.

Mais cedo, nesta segunda, a colunista do G1 e da GloboNews Julia Duailibi antecipou que o texto da MP seria publicado no DOU.

Medidas provisórias têm força de lei assim que publicadas. A partir daí, o Congresso Nacional tem até 120 dias para votar a MP, aprovando o texto como o governo o enviou ou modificando o conteúdo. Se nesse prazo a medida não for aprovada, perderá validade.

Quando assumiu o mandato, em janeiro, Bolsonaro transferiu o Coaf do extinto Ministério da Fazenda para o Ministério da Justiça. Ao analisar a MP que reestruturou o governo, em maio, o Congresso desfez a mudança, levando o Coaf para o Ministério da Economia.

Na semana passada, porém, Bolsonaro informou que iria transferir o Coaf para o Banco Central para tirar o órgão do “jogo político”.

A polêmica

De acordo com o colunista do G1 e da GloboNews Valdo Cruz, aliados de Bolsonaro vinham pressionando o presidente a demitir o chefe do Coaf, Roberto Leonel.

Isso porque Leonel, indicado para o cargo pelo ministro da Justiça, Sergio Moro, criticou uma decisão do ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF).

Em julho, Toffoli suspendeu investigações baseadas em dados compartilhados pelo Coaf sem autorização judicial. A decisão foi tomada atendendo a um pedido dos advogados do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), um dos filhos do presidente Jair Bolsonaro.

Segundo o Coaf, foram encontradas movimentações financeiras atípicas de Fabrício Queiroz, motorista de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro quando o senador era deputado estadual. Conforme o órgão, Queiroz movimentou de maneira atípica R$ 1,2 milhão entre 2016 e 2017.

Como será o funcionamento do novo Coaf?

  • a Unidade de Inteligência Financeira responderá à Diretoria Colegiada do Banco Central;
  • o Ministério da Economia e o Ministério da Justiça e Segurança Pública prestarão “apoio administrativo” à unidade durante o período de transição;
  • o Conselho Deliberativo continuará responsável por definir a diretrizes estratégicas do órgão e julgar processos administrativos sancionadores.
Diário Oficial da União publica MP que muda o nome do Coaf e o transfere para o Banco Central — Foto: Diário Oficial da União / Reprodução

Diário Oficial da União publica MP que muda o nome do Coaf e o transfere para o Banco Central — Foto: Diário Oficial da União / Reprodução

Composição do conselho

A MP publicada pelo governo revoga o dispositivo (artigo 16) da lei que criou o Coaf (Lei nº 9.613/1998) sobre a composição do conselho. De acordo com o artigo, o conselho deveria ser integrado por “servidores públicos de reputação ilibada e reconhecida competência”.

De acordo com a MP editada pelo governo, a Unidade de Inteligência Financeira será composta por no mínimo oito e, no máximo 14 conselheiros, “escolhidos dentre cidadãos brasileiros com reputação ilibada e reconhecidos conhecimentos em matéria de prevenção e combate à lavagem de dinheiro, ao financiamento do terrorismo ou ao financiamento da proliferação de armas de destruição em massa”.

Segundo o texto publicado, o presidente da Unidade de Inteligência Financeira será escolhido e nomeado pelo presidente do Banco Central (BC). Antes, o presidente do Coaf era indicado pelo ministro de Estado da Economia e nomeado pelo Presidente da República.

Íntegra da MP no “Diário Oficial da União”

MEDIDA PROVISÓRIA Nº 893, DE 19 DE AGOSTO DE 2019

Transforma o Conselho de Controle de Atividades Financeiras na Unidade de Inteligência Financeira.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso da atribuição que lhe confere o art. 62 da Constituição, adota a seguinte Medida Provisória, com força de lei:

Art. 1º Esta Medida Provisória transforma o Conselho de Controle de Atividades Financeiras na Unidade de Inteligência Financeira.

Art. 2º O Conselho de Controle de Atividades Financeiras fica transformado, sem aumento de despesa, na Unidade de Inteligência Financeira.

§ 1º A Unidade de Inteligência Financeira é responsável por produzir e gerir informações de inteligência financeira para a prevenção e o combate à lavagem de dinheiro, ao financiamento do terrorismo e ao financiamento da proliferação de armas de destruição em massa e promover a interlocução institucional com órgãos e entidades nacionais, estrangeiros e internacionais que tenham conexão com a matéria.

§ 2º Ficam transferidas para a Unidade de Inteligência Financeira as competências atribuídas ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras pela legislação em vigor.

Art. 3º A Unidade de Inteligência Financeira, vinculada administrativamente ao Banco Central do Brasil, tem autonomia técnica e operacional e atuação em todo o território nacional.

Art. 4º A estrutura organizacional da Unidade de Inteligência Financeira compreende:

I – o Conselho Deliberativo; e

II – o Quadro Técnico-Administrativo.

Art. 5º O Conselho Deliberativo é composto pelo Presidente da Unidade de Inteligência Financeira e por, no mínimo, oito e, no máximo, quatorze Conselheiros, escolhidos dentre cidadãos brasileiros com reputação ilibada e reconhecidos conhecimentos em matéria de prevenção e combate à lavagem de dinheiro, ao financiamento do terrorismo ou ao financiamento da proliferação de armas de destruição em massa.

§ 1º Compete ao Presidente do Banco Central do Brasil:

I – escolher e designar os Conselheiros; e

II – escolher e nomear o Presidente da Unidade de Inteligência Financeira.

§ 2º A atuação dos Conselheiros será considerada prestação de serviço público relevante, não remunerada.

§ 3º Compete à Diretoria Colegiada do Banco Central do Brasil fixar o número de Conselheiros, atendidos os parâmetros do caput.

Art. 6º Compete ao Conselho Deliberativo, além de outras atribuições previstas no regimento interno da Unidade de Inteligência Financeira:

I – a definição e a aprovação das orientações e das diretrizes estratégicas de atuação da Unidade de Inteligência Financeira; e

II – o julgamento dos processos administrativos sancionadores na esfera de competência da Unidade de Inteligência Financeira.

Art. 7º O Quadro Técnico-Administrativo é composto pela Secretaria-Executiva e pelas Diretorias Especializadas previstas no regimento interno da Unidade de Inteligência Financeira e é integrado por:

I – ocupantes de cargos em comissão e funções de confiança;

II – servidores, militares e empregados cedidos ou requisitados; e

III – servidores efetivos.

Parágrafo único. A gestão do Quatro Técnico-Admnistrativo compete ao Presidente da Unidade de Inteligência Financeira.

Art. 8º A organização e o funcionamento da Unidade de Inteligência Financeira, incluídas a sua estrutura e as competências e atribuições no âmbito do Conselho Deliberativo e do Quadro Técnico-Administrativo, serão definidos no regimento interno da Unidade de Inteligência Financeira.

Art. 9º A Diretoria Colegiada do Banco Central do Brasil regulará o processo administrativo sancionador no âmbito da Unidade de Inteligência Financeira e disporá, inclusive, sobre o rito, os prazos e os critérios para gradação das penalidades previstas na Lei nº 9.613, de 3 de março de 1998, assegurados o contraditório e a ampla defesa.

§ 1º Caberá recurso das decisões da Unidade de Inteligência Financeira relativas à aplicação de penalidades administrativas ao Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional.

§ 2º O disposto na Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999, se aplica subsidiariamente aos processos administrativos sancionadores instruídos no âmbito da Unidade de Inteligência Financeira, exceto quanto às disposições que contrariem a regulação de que trata este artigo.

Art. 10. Compete à Diretoria Colegiada do Banco Central do Brasil aprovar o regimento interno da Unidade de Inteligência Financeira.

Paragráfo único. O regimento interno da Unidade de Inteligência Financeira disporá sobre as regras gerais de reunião, organização e deliberação do Conselho Deliberativo.

Art. 11. É aplicável o disposto no art. 2º da Lei nº 9.007, de 17 de março de 1995, aos servidores, aos militares e aos empregados requisitados para a Unidade de Inteligência Financeira.

Art. 12. Ficam remanejados para a Unidade de Inteligência Financeira os cargos em comissão e as funções de confiança alocadas ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras na data de entrada em vigor desta Medida Provisória.

Art. 13. Ficam transferidos para a Unidade de Inteligência Financeira os servidores e os empregados em exercício no Conselho de Controle de Atividades Financeiras na data de entrada em vigor desta Medida Provisória.

§ 1º A transferência de pessoal a que se refere ocaputnão implicará alteração remuneratória e não poderá ser obstada a pretexto de limitação de exercício em outro órgão ou entidade por força do disposto em lei especial.

§ 2º Não haverá novo ato de cessão, requisição ou movimentação de pessoal em razão das alterações realizadas por esta Medida Provisória.

§ 3º Sem prejuízo do disposto nesta Medida Provisória, a estrutura do Conselho de Controle de Atividades Financeiras será aplicável à Unidade de Inteligência Financeira até a aprovação do seu regimento interno.

Art. 14. O Ministério da Economia e o Ministério da Justiça e Segurança Pública prestarão o apoio técnico e administrativo necessário para o funcionamento e a operação da Unidade de Inteligência Financeira até que haja disposição em contrário em ato do Poder Executivo federal ou em ato conjunto dos Ministros de Estado envolvidos.

Art. 15. Ficam revogados os seguintes dispositivos da Lei nº 9.613, de 1998:

I – o art. 13;

II – o art. 16; e

III – o art. 17.

Art. 16. Esta Medida Provisória entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília, 19 de agosto de 2019; 198º da Independência e 131º da República.

JAIR MESSIAS BOLSONARO

Paulo Guedes

Roberto de Oliveira Campos Neto

G1


Economia

Petrobras eleva preço da gasolina nas refinarias

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Petrobras elevará o preço médio da gasolina nas refinarias em 0,15 real, para 1,98 real por litro, a partir de terça-feira, enquanto manterá o valor do diesel, informou a petroleira estatal nesta segunda-feira, após avanço das cotações internacionais do petróleo nas últimas semanas.

A Petrobras reiterou que seus preços têm como referência a chamada paridade de importação, impactada por fatores como os valores do petróleo e o câmbio, de acordo com comunicado enviado pela assessoria de imprensa.

O repasse dos reajustes nas refinarias aos consumidores finais nos postos não é garantido, e depende de uma série de questões, como margem da distribuição e revenda, impostos e adição obrigatória de etanol anidro e biodiesel.

epocanegocios

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Economia

A inflação vai voltar depois da pandemia?

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Os economistas adoram discordar, mas quase todos concordam que a inflação acabou. A premissa da inflação baixa está embutida nas políticas econômicas e nos mercados financeiros. É por isso que os bancos centrais podem cortar as taxas de juros para quase zero e comprar montanhas de títulos do governo. A inflação baixa também explica por que os governos conseguiram entrar numa farra épica de gastos e empréstimos para salvar a economia da devastação pandêmica – e por que os 125% do PIB de dívida pública do mundo rico mal suscitam preocupação. A busca por rendimento impulsionou o índice de ações S&P 500 para novas altas, mesmo com mais de 100 mil americanos hospitalizados com covid-19. A única maneira de justificar essa alta no mercado de ações seria esperar uma recuperação econômica forte, mas sem inflação, a partir de 2021.

No entanto, como explicamos, um grupo cada vez mais eloquente de dissidentes que pensa que o mundo pode sair da pandemia para uma era de inflação mais alta. Seus argumentos não chegam a ser arrebatadores, mas também não são vazios. Mesmo uma pequena probabilidade de enfrentar um aumento da inflação é preocupante, porque o estoque da dívida está muito grande e os balanços dos bancos centrais estão inchados. Em vez de ignorar o risco, os governos precisam agir agora para se protegerem dessa possibilidade.

Nas décadas desde que Margaret Thatcher alertou sobre o ciclo vicioso de preços e salários que ameaçava “destruir” a sociedade, o mundo rico passou a tomar a inflação baixa como algo natural. Antes da pandemia, nem mesmo um mercado de trabalho extremamente apertado conseguiu elevar os preços, e agora há exércitos de pessoas desempregadas. Muitos economistas acham que o Ocidente, especialmente a zona do euro, está seguindo o caminho do Japão, que caiu em deflação na década de 1990 e desde então tem lutado para elevar os preços acima de zero.

Prever o fim dessa tendência é uma espécie de apostasia. Depois da crise financeira, alguns falcões alertaram que a compra de títulos pelos bancos centrais (conhecida como flexibilização quantitativa, ou QE, na sigla em inglês) iria reacender a inflação. Ficaram com cara de bobo.

Mas hoje os argumentos dos inflacionistas estão mais fortes. Um risco é de uma explosão temporária da inflação no ano que vem. Em contraste com o período que se seguiu à crise financeira, amplas medidas para oferta de moeda dispararam no mundo rico em 2020, uma vez que os bancos vêm emprestando livremente. Presas em casa, as pessoas não conseguiram gastar todo o seu dinheiro e seus saldos bancários aumentaram. Mas, uma vez vacinados e libertados da tirania do Zoom, os consumidores mais exuberantes podem entrar numa onda de gastos que venha a superar a capacidade das empresas de restaurar e expandir sua oferta, fazendo com que os preços subam. A economia global já mostra sinais de gargalos. O preço do cobre, por exemplo, está 25% superior ao do início de 2020.

O mundo deveria ser capaz de administrar essa explosão temporária de inflação. Mas o segundo argumento inflacionista é que surgirão também pressões de preços mais persistentes, à medida que as forças desinflacionárias estruturais forem revertidas. No Ocidente e na Ásia, muitas sociedades estão envelhecendo, gerando escassez de trabalhadores. Durante anos, a globalização baixou a inflação, criando um mercado mais eficiente para bens e trabalho. Agora, a globalização está batendo em retirada.

O terceiro argumento dos inflacionistas é que os políticos e as autoridades são complacentes. O Federal Reserve diz que quer que a inflação ultrapasse sua meta de 2% para compensar o terreno perdido; o Banco Central Europeu – que estava para anunciar mais estímulos depois do fechamento desta matéria – ainda pode seguir o mesmo rumo. Sobrecarregados pela necessidade de pagar pelo envelhecimento da população e pelos cuidados de saúde, os políticos preferirão cada vez mais os grandes déficits orçamentários.

Esses argumentos estão corretos?

É perfeitamente possível uma subida temporária da inflação no ano que vem. No início, seria algo bem-vindo – um sinal de que as economias estavam se recuperando da pandemia. E inflacionaria uma modesta quantia de dívidas. Os formuladores de políticas poderiam até respirar aliviados, especialmente no Japão e na zona do euro, onde os preços estão caindo (embora mudanças rápidas no padrão de gastos do consumidor possam ter confundido as estatísticas).

As chances de um período de inflação mais sustentado continuam baixas. Mas se os bancos centrais tiverem de aumentar as taxas de juros para impedir que os aumentos de preços fujam do controle, as consequências podem ser graves. Os mercados iriam desabar e as empresas endividadas, vacilar. Mais importante, o custo total das contas vastamente expandidas do Estado – tanto a dívida dos governos quanto os passivos dos bancos centrais – ficaria alarmantemente exposto. Para entender o porquê, é necessário examinar como eles estão organizados.

Apesar de toda a conversa sobre “travar” as baixas taxas de juros de longo prazo, o segredo sujo dos governos é que eles têm feito o oposto: estão emitindo dívidas de curto prazo, apostando que as taxas de juros de curto prazo permanecerão baixas. O prazo médio dos títulos do Tesouro americano, por exemplo, caiu de 70 para 63 meses. Os bancos centrais têm feito uma aposta semelhante. Como as reservas que eles criam para comprar títulos têm uma taxa de juros flutuante, elas são comparáveis a empréstimos de curto prazo. Em novembro, o órgão fiscal da Grã-Bretanha alertou que uma combinação de nova emissão com QE deixara os custos do serviço da dívida do Estado duas vezes mais sensíveis às taxas de curto prazo do que eram no início do ano, e quase três vezes mais do que em 2012.

Então, embora a probabilidade de um susto inflacionário possa ter aumentado apenas um pouco, suas consequências podem ser muito piores. Os países precisam se proteger contra esse risco, reorganizando seus passivos. Os governos devem financiar o estímulo fiscal emitindo dívida de longo prazo. A maioria dos bancos centrais deve iniciar uma reversão ordenada da QE e afrouxar a política monetária, deixando as taxas de juros de curto prazo negativas. Os ministérios das finanças devem incorporar os riscos assumidos pelo banco central em seus orçamentos (e a zona do euro precisa encontrar uma ferramenta melhor do que a QE para reorganizar as dívidas de seus estados-membros). Encurtar o vencimento das dívidas do estado – como em 2020 – deve ser apenas um último recurso e não pode se tornar a principal ferramenta de política econômica.

Em louvor à naftalina

Os inflacionistas provavelmente estão errados. Até o arquimonetarista Milton Friedman, que inspirou Thatcher, admitiu já no fim da vida que o vínculo de curto prazo entre a oferta de moeda e a inflação havia se rompido. Mas a pandemia de covid-19 mostrou a importância da preparação para eventos raros, mas devastadores. O retorno da inflação não deve ser exceção.

Estadão

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Economia

PIB tem crescimento recorde de 7,7% no 3º trimestre, mas não recupera perdas da pandemia

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© Marcelo Chello/Estadão – 2/12/2020

Uma maior reabertura das atividades em meio à pandemia e o impulso dado pelo auxílio emergencial fizeram a economia registrar no terceiro trimestre o maior crescimento em duas décadas. O Produto Interno Bruto (PIB, o valor de tudo o que é produzido na economia) saltou 7,7% ante o segundo trimestre, informou nesta quinta-feira, 3, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Embora seja mais forte do que o esperado no início da crise, a retomada ainda é insuficiente para recuperar as perdas do primeiro semestre.

Tanto que o PIB registrou queda de 3,9% na comparação com igual período de 2019. A retração do PIB em 2020 deverá ficar em 4,50%, conforme pesquisa do Projeções Broadcast feita antes da divulgação dos dados do IBGE. Ainda que menor do que as primeiras projeções, feitas quando a covid-19 se abateu sobre a economia, se confirmada, será a maior queda anual da história – a mais intensa até hoje foi registrada em 1990 (-4,35%), na série histórica iniciada em 1901.

Em parte, a forte alta do terceiro trimestre se explica por um efeito estatístico. O salto se segue ao recuo de 1,5% no primeiro trimestre ante o quarto trimestre de 2019 e ao tombo, também recorde, de 9,6% no segundo trimestre.

De abril a junho, a retração foi tão pior do que em outras crises porque a economia foi “desligada” no início da pandemia, diz Eduardo Zilbermann, professor do Departamento de Economia da PUC-Rio, numa referência às regras de restrição ao contato entre as pessoas.

Como explica Zilbermann, o PIB é uma medida de fluxo, de quanto se gera de valor continuamente ao longo do tempo. Em outras crises – causadas por inflação, desequilíbrios nas contas externas ou bolhas financeiras, etc. -, as empresas entram em dificuldade, suspendem investimentos e demitem funcionários, ou a renda das famílias é corroída, e elas consomem menos. Assim, lojas vendem menos, mas seguem vendendo. Indústrias veem a demanda caindo e reduzem a produção, mas seguem produzindo. E o fluxo se reduz na comparação com períodos anteriores.

Só que o “desligamento” na pandemia fechou lojas, que não podiam receber clientes, e fábricas, que não podiam aglomerar trabalhadores. Vendas e produção foram para perto de zero, uma enorme queda na comparação com os fluxos de períodos anteriores. Mesmo que a parada para valer tenha ocorrido em abril, o fundo do poço, a reabertura gradual a partir de maio foi insuficiente para salvar o PIB do segundo trimestre, formado pelo fluxo contínuo em cada um dos meses.

No terceiro trimestre, bastou a economia passar todo o período “religada” para o fluxo de valor gerado ficar muito acima do registrado no PIB do segundo trimestre, explica Zilbermann. Mesmo assim, esse fluxo foi inferior ao registrado nos trimestres de 2019, antes da pandemia. Por isso, a alta recorde sobre o trimestre imediatamente anterior não significa o fim da crise.

O quadro só não foi pior por causa das medidas do governo federal para mitigar a crise, como o auxílio emergencial para trabalhadores informais e as complementações de renda dos trabalhadores formais que tiveram suas jornadas de trabalha suspensas ou reduzidas.

“A recuperação no Brasil foi melhor do que nos pares na América Latina. Atribuo isso às políticas fiscal e creditícia”, diz Zilbermann.

Economistas já vinham ressaltando que o auxílio emergencial – que começou em R$ 600 ao mês e passou a R$ 300 por mês desde setembro – impulsionaria a economia. Nos primeiros meses, a renda extra chegou a tirar milhões de brasileiros da extrema pobreza, mas uma reversão nesse movimento já a partir de setembro reforçou seu caráter temporário. O consumo das famílias cresceu 7,6% sobre o segundo trimestre, puxando a recuperação.

Só que mesmo o avanço do consumo trouxe traços “heterogêneos” e “disfuncionais” da recuperação, segundo Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV). Com as famílias ficando mais em casa, mesmo após a flexibilização das restrições em várias cidades, o consumo de bens, especialmente os essenciais, como alimentos, avançou mais.

Segundo Silvia, essas peculiaridades levam incerteza sobre a recuperação. Os níveis de atividade da indústria de transformação e do comércio podem não se manter com a normalização dos hábitos das famílias. Além disso, o consumo tende a perder impulso sem o auxílio emergencial, a partir de janeiro. A pesquisadora do Ibre/FGV vê a economia com crescimento nulo, ou até novas quedas, no primeiro semestre de 2021.

Por isso, a manutenção do auxílio emergencial no próximo ano, ou sua substituição por um programa mais abrangente do que o Bolsa Família, tem dividido o debate entre economistas. Para Silvia, a economia brasileira está “entre a cruz e a espada”. De um lado, sem os gastos com transferência de renda, o consumo perde impulso. De outro, sem um remanejamento das despesas, os novos gastos agravam o rombo nas contas públicas, elevam o endividamento público, dificultam a rolagem da dívida do governo, elevam juros, aumentam a cotação do dólar e poderão pressionar a inflação – o que acabaria por minar a recuperação do PIB.

No outro lado do debate, há economistas que veem a elevação da dívida pública e a ampliação do rombo nas contas do governo como menos preocupantes, já que vários países estão fazendo o mesmo e os juros estão baixos no mundo todo.

A indicação de Janet Yellen, ex-presidente do Fed (o banco central americano) como secretária do Tesouro do governo do presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, sinalizou para mais gastos públicos para mitigar a crise em 2021. Nomes como o ex-secretário de Tesouro americano Larry Summers e o ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) Olivier Blanchard vêm defendendo mais despesas dos governos de países desenvolvidos para ajudar na recuperação da economia.

Para José Oreiro, professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB), no início do próximo ano, a economia ainda não terá se recuperado da queda do primeiro semestre deste ano, o desemprego estará elevado e há chance de uma segunda onda de contágio da pandemia ganhar força. Nesse quadro, sem a prorrogação do estado de calamidade pública, em vigor até 31 de dezembro, o teto de gastos públicos voltará a valer. O governo será obrigado a fazer um forte corte nas despesas.

“Se retiramos o auxílio de maneira súbita, que é o cenário que se coloca hoje, vamos entrar em recessão em 2021 de novo”, diz Oreiro.

Apesar das divergências sobre política econômica, há consenso num ponto: a principal variável a determinar os rumos da retomada será mesmo a pandemia. Uma segunda onda que ganhe força, acelerando o crescimento do número de casos e de mortes poderá exigir novas medidas de restrição ao contato social, atingindo novamente a economia. O sucesso no controle da doença e a eventual vacinação em massa ao longo de 2021 levarão mais pessoas às ruas, ampliando o consumo e acelerando a recuperação.

Estadão

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